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A PARÁBOLA E O DIABO


Imagem de figuras 3D humanas em uma discussão ou confronto, ilustrando conflitos ou diálogos entre pessoas, representando situações de argumentação ou debate.

A raiz comum: quando o diabo e a parábola emergem do mesmo verbo


Tudo começa com um verbo grego: ballein, que significa jogar, atirar, lançar. Dessa mesma raiz brotam duas palavras aparentemente opostas, mas estruturalmente gêmeas: parabolé (parábola) e diabolos (diabo). Compreender essa origem é compreender o próprio mecanismo da criação, da separação e da verdade.


1. O que é parábola? O lançamento ao lado


Parábola vem de para- (ao lado) + ballein (jogar, atirar). É aquilo que se lança ao lado do ouvinte, não diretamente contra ele. A parábola não agride; ela compara, sugere, alegoriza.


É uma representação simbólica que transforma o oculto em revelado, o escondido em manifesto, respeitando, porém, o tempo e o livre-arbítrio de quem a escuta.


A exegese gnóstica sugere que o Criador — o Verbo — cria parábolas para que sejam reproduzidas à Sua “imagem e semelhança”, isto é, em conformidade com a verdade.


Quando se compreendem as Leis Universais da Natureza, todas as parábolas convergem para a própria Verdade.


2. O que é diabo? O lançamento através da separação

Diabo vem de dia- (através, separação) + ballein (jogar, atirar). É aquilo que lança a verdade atravessando, sem mediação. Por isso, o diabolos é o acusador: expõe, confronta, denuncia — sem ponderar consequências. Ele intriga, divide, separa.


Como diz Lucas 11:23:


“Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha”.

Assim, o diabo representa, por natureza, o princípio da dualidade: a força que divide. Torna-se o “bode expiatório” do pensamento — um agente que se condena à dispersão.


Da ação divisória do Uno em dois, surgem os polos que reagem entre si, dando origem à Lei dos Opostos.


3. Duas direções


Tanto a palavra parábola quanto a palavra diabo implicam o ato de lançar; a diferença está no modo e na finalidade.


A parábola não impõe a verdade: ela a circunda, permitindo que o ouvinte a reconheça no seu tempo.


O diabo, ao contrário, arremessa a verdade como acusação imediata, sem mediação. Por isso, permanece como força reativa enquanto não compreende a Lei de Ação e Reação.


A Lei é o fogo que castiga o pensamento que reage, isto é, a essência que ainda não compreendeu.


4. Nós, entre a parábola e o diabo


Todos nascemos de uma semente; somos fractais do divino manifestos na matéria. Somos a “parábola do sopro”: a semente do fruto oferecido pela serpente a Adão e Eva — o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, capaz de reproduzir essa mesma função: gerar à própria imagem e semelhança, para que, por meio da Lei de Ação e Reação, possamos aprender e compreender.


A serpente que sugere o fruto não cria o princípio, apenas o ativa: após a cogitação, a preparação e a execução, a ação se consuma, e surge a separação.


Nesse processo, o que se chama “diabo” e “inferno” pode ser entendido como construções da mente humana, que, por um mecanismo de projeção, as lança como se fossem externas.


Em um nível mais elevado de compreensão, observa-se que:


·     A mente criadora (natureza) é tomada por muitas tradições como Deus;

·         O inconsciente é o "inferno";

·         Os pensamentos são os "diabos";

·         As reações às más ações são o "fogo".


5. A síntese


Aquele que compreende esse mistério alinha-se à vontade do Uno — de Deus — e deixa de entrar em conflito com seus semelhantes. Reconhece que tanto a dualidade quanto os opostos nascem do mesmo Deus, mas com a finalidade de ensinar e religar, contribuindo assim com a Verdade.


O dual reflete o Todo, mas, por sua própria natureza, não alcança a Verdade.


Quando a Verdade se aproxima, o pensamento — esse “pequeno diabo” interior — ativa mecanismos de defesa, entre eles a negação e a distorção.


O Uno, porém, dissolve essas defesas: não invade, orienta; não fere, semeia.


Conclusão


Bem e Mal são dois polos — modos de operação — do mesmo Criador. Cabe a cada um de nós transformar os opostos em síntese, edificando o Ser — deixando de ser acusadores para nos tornarmos expressão viva da Verdade.

Dessa forma, não saia por aí disparando suas “verdades”, pois, ao fazê-lo, você se comporta como um diabo.


Aracides Montreal Maciel


 
 
 

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