A PARÁBOLA E O DIABO
- Aracides Montreal Maciel

- 21 de abr.
- 3 min de leitura

A raiz comum: quando o diabo e a parábola emergem do mesmo verbo
Tudo começa com um verbo grego: ballein, que significa jogar, atirar, lançar. Dessa mesma raiz brotam duas palavras aparentemente opostas, mas estruturalmente gêmeas: parabolé (parábola) e diabolos (diabo). Compreender essa origem é compreender o próprio mecanismo da criação, da separação e da verdade.
1. O que é parábola? O lançamento ao lado
Parábola vem de para- (ao lado) + ballein (jogar, atirar). É aquilo que se lança ao lado do ouvinte, não diretamente contra ele. A parábola não agride; ela compara, sugere, alegoriza.
É uma representação simbólica que transforma o oculto em revelado, o escondido em manifesto, respeitando, porém, o tempo e o livre-arbítrio de quem a escuta.
A exegese gnóstica sugere que o Criador — o Verbo — cria parábolas para que sejam reproduzidas à Sua “imagem e semelhança”, isto é, em conformidade com a verdade.
Quando se compreendem as Leis Universais da Natureza, todas as parábolas convergem para a própria Verdade.
2. O que é diabo? O lançamento através da separação
Diabo vem de dia- (através, separação) + ballein (jogar, atirar). É aquilo que lança a verdade atravessando, sem mediação. Por isso, o diabolos é o acusador: expõe, confronta, denuncia — sem ponderar consequências. Ele intriga, divide, separa.
Como diz Lucas 11:23:
“Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha”.
Assim, o diabo representa, por natureza, o princípio da dualidade: a força que divide. Torna-se o “bode expiatório” do pensamento — um agente que se condena à dispersão.
Da ação divisória do Uno em dois, surgem os polos que reagem entre si, dando origem à Lei dos Opostos.
3. Duas direções
Tanto a palavra parábola quanto a palavra diabo implicam o ato de lançar; a diferença está no modo e na finalidade.
A parábola não impõe a verdade: ela a circunda, permitindo que o ouvinte a reconheça no seu tempo.
O diabo, ao contrário, arremessa a verdade como acusação imediata, sem mediação. Por isso, permanece como força reativa enquanto não compreende a Lei de Ação e Reação.
A Lei é o fogo que castiga o pensamento que reage, isto é, a essência que ainda não compreendeu.
4. Nós, entre a parábola e o diabo
Todos nascemos de uma semente; somos fractais do divino manifestos na matéria. Somos a “parábola do sopro”: a semente do fruto oferecido pela serpente a Adão e Eva — o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, capaz de reproduzir essa mesma função: gerar à própria imagem e semelhança, para que, por meio da Lei de Ação e Reação, possamos aprender e compreender.
A serpente que sugere o fruto não cria o princípio, apenas o ativa: após a cogitação, a preparação e a execução, a ação se consuma, e surge a separação.
Nesse processo, o que se chama “diabo” e “inferno” pode ser entendido como construções da mente humana, que, por um mecanismo de projeção, as lança como se fossem externas.
Em um nível mais elevado de compreensão, observa-se que:
· A mente criadora (natureza) é tomada por muitas tradições como Deus;
· O inconsciente é o "inferno";
· Os pensamentos são os "diabos";
· As reações às más ações são o "fogo".
5. A síntese
Aquele que compreende esse mistério alinha-se à vontade do Uno — de Deus — e deixa de entrar em conflito com seus semelhantes. Reconhece que tanto a dualidade quanto os opostos nascem do mesmo Deus, mas com a finalidade de ensinar e religar, contribuindo assim com a Verdade.
O dual reflete o Todo, mas, por sua própria natureza, não alcança a Verdade.
Quando a Verdade se aproxima, o pensamento — esse “pequeno diabo” interior — ativa mecanismos de defesa, entre eles a negação e a distorção.
O Uno, porém, dissolve essas defesas: não invade, orienta; não fere, semeia.
Conclusão
Bem e Mal são dois polos — modos de operação — do mesmo Criador. Cabe a cada um de nós transformar os opostos em síntese, edificando o Ser — deixando de ser acusadores para nos tornarmos expressão viva da Verdade.
Dessa forma, não saia por aí disparando suas “verdades”, pois, ao fazê-lo, você se comporta como um diabo.
Aracides Montreal Maciel




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