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DESPERTE ANTES QUE O GALO CANTE


O galo canta principalmente no final da madrugada, por volta das 5h, devido ao seu ritmo circadiano (relógio interno — Lei), avisando que astro rei está retornando. Ele, às vezes, também canta ao longo do dia para alertar aqueles que ainda dormem.


Para compreendermos este artigo, recorremos ao mito grego presente na Odisseia, de Homero, que narra o flagrante do amor adúltero entre Afrodite e Ares.


Eles foram descobertos pelo Hélio, o deus Sol que tudo vê, que os surpreendeu no leito de Hefesto, marido da deusa do amor.


O deus Sol denunciou a traição a Hefesto em segredo. Este, por sua vez, construiu e armou em seu leito uma rede de malha tão fina que era quase transparente, porém extremamente resistente, para prender os traidores, em sua próxima aventura, em pleno ato ilícito, sem que pudessem se mover.


Ao consumarem o crime e serem capturados, foram levados por Hefesto ao Olimpo, onde ficaram expostos à zombaria dos outros deuses, que não conseguiram conter o riso diante da cena.


Mas onde entra o galo nessa história?

Conta-se que Aresdeixou um jovem chamado Alectrión vigiando os arredores, com a missão de acordá-lo cedo para que não fossem flagrados pela luz do dia (Hélio).


Tudo corria bem até o dia em que o jovem adormeceu. Hélio, o deus Sol — que aqui simboliza a Lei — surpreendeu os amantes ainda sonolentos, pois haviam sido atingidos por Hipnos, o deus do sono, após uma noite de prazeres inconscientes.


Após ser exposto publicamente com sua amante, mesmo estando preso na rede quase invisível que os impedia de se mover, Ares, furioso ao ver o jovem Alectrión, transformou-o em um galo. Sua condenação foi a obrigação de sempre “cantar”, despertando as pessoas antes que o Sol surgisse. Em grego, alektryón significa, literalmente, galo.


A punição de Alectrión por Ares simboliza, em essência, a tendência do inconsciente humano de culpar os outros por seus próprios erros — quando, no fundo, quem precisa “acordar” somos nós mesmos.


Cena com personagens históricos e mitológicos em estilo clássico com elementos como colunas, pássaros e galos, transmitindo uma atmosfera de antiguidade e fantasia.

O mito nos traz outros ensinamentos: o lento alcança o veloz. Hefesto, o deus coxo, conseguiu capturar um dos mais rápidos entre os deuses — Ares — em razão de sua má ação.


Nossas más condutas prosperam apenas até certo ponto; a justiça tarda, mas não falha. Assim como na fábula A Lebre e a Tartaruga, evidencia-se que a persistência e o trabalho silencioso — as Leis Universais da Natureza — superam a ousadia e a ligeireza das infrações, geralmente acompanhadas de arrogância ou preguiça.

Ilustração de um coelho desenhado de forma divertida em um ambiente natural, com uma tartaruga na frente e uma paisagem de floresta ao fundo, representando uma história lúdica.

Como uma má ação nunca atinge apenas o autor, mas também aqueles que com ela colaboram, Alectrión perdeu sua condição humana. Em sua servidão, acreditando agir em benefício de Ares, prejudicava Hefesto. O galo, em sua existência dual, acredita que, ao despertar as pessoas para o trabalho, faz o bem; por outro lado, muitos o odeiam por recordá-las, diariamente, de que precisam ir trabalhar.


O Canto e a Consciência


O não cantar do galo não significa que ele dormiu, mas o afastamento do caminho reto. Esse afastamento nos conduz a um silêncio ilusório, no qual tudo parece estar bem enquanto estamos hipnotizados pelos desejos — o inconsciente — e, assim, não ouvimos o canto do galo. A Lei está sempre cantando; as tensões durante as ações e reações é um indício claro de seu canto.


Assim, a figura do galo se cristaliza, desde a antiguidade, como um alerta contra o sono da inconsciência. Centenas de anos depois, no limiar entre a traição e a redenção, esse mesmo símbolo reaparecerá para marcar o instante preciso em que um homem confronta o abismo entre sua intenção e sua ação: o apóstolo Pedro.


O apóstolo Pedro, ao negar o Cristo, sentiu uma dor profunda, marcada por um choro amargo de arrependimento ao perceber sua própria fraqueza. Mesmo tendo jurado fidelidade, Pedro negou Jesus três vezes. Por quê? Por medo da morte.


“Replicou-lhe Jesus: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo”.  Mateus, 26:34-35.

O medo da morte surgiu na mente de Pedro ao compreender que Jesus sabia o que ocorreria após o canto do galo: a manifestação da Lei. Pedro, ainda não estando pronto para o autossacrifício — a morte na Cruz —, negou-o.


Imagem de um homem emocionado, com expressão de alegria ou tristeza, segurando uma corda, em um cenário ao ar livre, demonstrando uma forte emoção.

No momento em que negava Cristo, Pedro sentiu um alívio passageiro. Contudo, ao cruzar o olhar com Jesus Cristo no exato instante em que o galo cantou, sobreveio-lhe a compreensão imediata da traição, conduzindo-o ao reconhecimento da própria culpa. Ou seja, todos devemos estar dispostos ao autossacrifício se almejarmos não negar a Cristo.


Todos nós, encarcerados neste planeta e em nossas próprias mentes, somos, sem exceção, culpados. Negamos as consequências de nossas más ações e resistimos em aceitá-las. Talvez um dia nós também cruzemos o olhar com o Cristo e ouçamos o “canto do galo”.


Se desejamos realizar a revolução psicológica, não devemos negar nossas falhas, mas morrer psicologicamente na cruz do arrependimento. Jesus conhecia suas fraquezas, mas não negava o Cristo interno.


A condenação da Via Crucis não foi um erro judiciário dos homens; se as acusações fossem indevidas, Ele não teria morrido, nem teria ensinado a perdoar “as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”, tampouco a oferecer a “outra face”. A morte, nesse sentido, é conscientemente legítima e aceita conforme as Leis Universais da Natureza, criadas por Deus.


O julgamento e a condenação não são frios nem injustos, mas libertadores. Isso não deve ser visto sob a ótica do sadomasoquismo, mas como um processo necessário: se almejamos nos libertar dos sofrimentos inconscientes, devemos capturar os egos com a malha fina da consciência e levá-los até a “cruz do Olimpo", para que morra a personalidade mundana e Cristo ressuscite.


E o galo? O galo apenas nos alerta de que o inconsciente deve responder, à luz do dia, pelas reações de suas más ações.


Na hora do prazer inconsciente, nossos arquétipos (Ares e Afrodite)— nossas infrações — satisfazem-se com o delito, porém, quando o galo canta e nós não acordamos, somos flagrados pela luz do deus Sol — a Lei.


Aracides Montreal Maciel – Psicólogo e escritor.




 
 
 

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