JEJUM
- Adaiane da Silva Morais

- 19 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
O que acontece quando nos abstemos?

Jesus disse: "Se aqueles que vos guiam disserem: ‘O reino está no céu’, então os pássaros do céu vos precederão; se vos disserem que está no mar, então os peixes vos precederão. Pois bem, o reino está dentro de vós e também está em vosso exterior. Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos, então sereis conhecidos e compreendereis que sois filhos do Pai vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis na pobreza e sereis essa pobreza.”
Olhar para dentro de nós mesmos e eliminar os pensamentos requer firmeza em um objetivo. Os alimentos dos pensamentos são diversos: redes sociais, identificação com as situações diárias, política, jogos, etc.
Quando nos dispomos a realizar a prática do jejum, passamos a perceber que existe dentro de nós uma profundidade de mistérios a ser desvelada. O verdadeiro alimento encontra-se em conhecer e compreender, de maneira profunda, tudo o que existe em nosso interior.
Etimologicamente, a palavra jejum vem do latim jejunos, que significa algo seco, vazio, sem nada. Jejum significa abster-se de alimento. No caminho espiritual, o jejum torna-se um grande aliado, pois, ao longo da vida, enfrentamos desafios que muitas vezes não compreendemos de imediato. Diante deles, acabamos buscando fugas para não olhar diretamente para a origem de nossas dores.
Iniciar um jejum com propósito nos traz grandes compreensões sobre as situações que vivemos. Para viver em profunda meditação em todos os momentos do dia a dia, é necessária a ausência de pensamentos — e essa é a busca do estudante Gnóstico.
Quando nos dispomos a estudar com sinceridade as questões que surgem em nossa vida, abrimos espaço para compreender e eliminar certos pensamentos de maneira consciente.
Para que uma identificação aconteça, existem muitas formas de alimentar um pensamento. Identificar-se com alguém é sentir ou perceber que se tem algo em comum com outra pessoa, a ponto de reconhecer nela partes de si mesmo.
A partir das redes sociais (como Facebook e Instagram), da televisão, das séries, dos filmes e das músicas, é possível identificar-se com inúmeros conteúdos. Vivemos em uma época digital e tecnológica, que se torna um terreno fértil tanto para a identificação com inúmeras situações quanto para o estudo consciente.
Se nos identificamos com as situações, tudo isso pode se tornar alimento para os pensamentos; mas, quando usamos essas tecnologias para o estudo, elas se tornam grandes aliadas na vida do estudante que busca compreender suas experiências.
Perceba que, muitas vezes, quando alguém se sente triste, ansioso ou com pensamentos depressivos, recorre a essas tecnologias na tentativa de amenizar o sofrimento. Entretanto, esses estímulos podem intensificar ainda mais os pensamentos, pois trazem para dentro de nós histórias, emoções e intenções que geram identificação com aquilo que vimos, ouvimos ou lemos.
Quando surge um pensamento que não é compreendido, muitas vezes a pessoa busca certos tipos de alimentos — doces, salgados, por exemplo — tentando preencher um vazio interior. Acaba comendo rápido e em excesso, sem perceber se realmente está com fome. Nesses momentos, uma pequena pausa pode ajudar. Basta perguntar a si mesmo:
“Estou comendo para nutrir meu corpo ou existe algo dentro de mim que me leva a buscar esse alimento?”.
Quando ingerimos alimentos sem a devida atenção, podemos sentir mal-estar ou até surgir um pensamento de culpa, acompanhado da pergunta: “O que foi que eu comi mesmo?”. Por isso, um olhar atento e consciente para o alimento é muito importante.
Os pensamentos também são alimentados pelo excesso de trabalho: a sensação de não conseguir ficar parado, de não conseguir permanecer sem realizar nenhuma atividade, de não conseguir simplesmente estar no presente. Isso acontece não apenas no ambiente profissional, mas também no lar e nas relações do dia a dia.
A busca por vícios também pode ocorrer. O vício é um estado em que a pessoa se torna dependente de uma substância ou de um comportamento, mesmo sabendo que isso traz consequências negativas para sua vida. Nesse sentido, bebidas alcoólicas, outras substâncias, jogos e pornografia acabam sendo usados como alimentos para os pensamentos. A pessoa passa a depender desses hábitos e já não consegue se imaginar sem eles.
Ao nos abstermos do alimento, inicialmente nos propomos a realizar uma limpeza do corpo físico, com a eliminação de toxinas do organismo. A digestão segue um caminho no corpo: começa na boca (mastigação e saliva), passa pela faringe, desce pelo esôfago até o estômago (ácido e enzimas), segue para o intestino delgado (absorção de nutrientes com o auxílio do fígado e do pâncreas) e chega ao intestino grosso (reabsorção de água), até a eliminação pelo ânus. Quando não há alimento no corpo, todo esse processo digestivo deixa de ocorrer.
Ao nos abstermos também do alimento dos pensamentos — vícios, excesso de trabalho, redes sociais e estímulos diversos — conseguimos entender e compreender, de forma mais profunda, tudo o que existe dentro de nós, em todos os níveis da mente. Compreender a si mesmo é um dos grandes desafios da vida; por isso, o jejum pode ser utilizado como auxílio no caminho do autoconhecimento.
É interessante observar que, geralmente, quando uma pessoa passa algum tempo sem se alimentar, tende a ficar irritada, nervosa, sentir dores ou até passar mal, podendo inclusive desmaiar. Esses sintomas refletem identificações com os próprios pensamentos.
Quando, de forma consciente, decidimos realizar um jejum e percebemos irritação, nervosismo ou ansiedade, é fundamental observar tudo o que ocorre internamente para compreender. Nesse momento, estamos passando por uma espécie de prova em relação à nossa intenção de jejuar.
Ao perceber que estamos em jejum, a mente começa a criar diversos pensamentos: que não será possível continuar, que não vamos aguentar ou até que o jejum pode causar danos ao corpo físico.
“Todo excesso esconde uma falta.”
Tudo o que não é feito de forma equilibrada revela algo que precisa ser observado. Quando percebemos que uma vida harmoniosa traz profunda felicidade, passamos a buscá-la com todo o coração.
Quando existe um propósito ao reduzir a alimentação, começamos a perceber que nossas dores, raivas e irritações sempre estiveram presentes. Muitas vezes não as notávamos porque estávamos constantemente alimentando e reforçando os pensamentos. Reduzir a alimentação não cria essas dores; apenas revela aquilo que já existia.
Quando deixamos de alimentar os pensamentos, eles se “revoltam” e se intensificam. Nesse momento, é preciso manter firmeza e observar, eliminando tudo o que foi criado pela mente. Com o tempo, tudo se acalma.
Os alimentos do ego são diversos. No dia a dia, estamos em contato com muitas pessoas e situações e, nesse sentido, nossos olhos funcionam de maneira semelhante a um buraco negro: tudo aquilo com que nos identificamos é absorvido para dentro de nós.
Assim, surge o julgamento: os olhos captam a informação e a mente começa a processá-la. Se prestarmos atenção ao cotidiano, perceberemos que, quando não emitimos julgamentos — como algo ou alguém ser bom ou ruim, certo ou errado, bonito ou feio —, não nos identificamos com a situação e conseguimos compreendê-la com mais tranquilidade.
São muitos os benefícios de viver em equilíbrio. Passamos a compreender o funcionamento da mente e a reconhecer o que existe em nosso interior: dores, mágoas e ressentimentos. Assim, podemos modificar comportamentos e ações, alterando nosso estado de consciência.
Ao nos depararmos com nossas próprias “falhas”, é essencial nos firmarmos no propósito do jejum e acolhermos a nós mesmos. Ninguém pode realizar esse trabalho por nós. Por isso, é fundamental não emitir julgamentos, nem sobre nós nem sobre os outros.
O verdadeiro jejum não se refere apenas ao que deixamos de ingerir, mas à ausência de identificação com os pensamentos. Jejuar de forma genuína é perceber o que se manifesta internamente e não alimentar o pensamento; não se trata apenas do que entra pela boca. O jejum do alimento é um recurso para compreendermos como alimentamos nossos defeitos psicológicos. Ao nos abstermos do alimento, o pensamento busca outras formas de se alimentar.
O jejum também nos prepara, mental e fisicamente, para permanecer períodos sem alimento, sem expressar frustração, ódio ou violência, independentemente das circunstâncias.
Então, seus discípulos o interrogaram, dizendo: "Queres que jejuemos? Como devemos orar? Devemos dar esmolas? Que dieta devemos observar?”
Jesus disse: "Não mintais e não façais aquilo que detestais, pois todas as coisas são desveladas aos olhos do céu. Nada há de oculto que não venha a ser manifesto.”

Ao realizarmos um estudo sincero sobre aquilo de que nos alimentamos de forma inconsciente e decidirmos abrir mão dos excessos, passamos a perceber mudanças internas e externas.
O físico reflete o estado psicológico; assim, transformações físicas também ocorrem. Ao renunciar aos excessos, compreendemos nossas faltas e passamos a viver as situações com maior aceitação.
A decisão de realizar o jejum deve ser consciente.
O jejum auxilia no caminho do autoconhecimento e torna-se alimento sagrado para todos aqueles que buscam conhecer o Pai que está em segredo.

Adaiane da Silva Morais




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